o gigante com pés de barro

Esta semana, a comunidade dos casamentos acordou e recebeu com espanto, a notícia do fecho do Style Me Pretty. Confesso que também fiquei surpresa não totalmente, pois fui acreditando que a máquina engordava mas já não tinha a mesma qualidade.

O meu post de hoje é uma reflexão sobre como sobreviver à mudança diária,  e como os negócios e consumidores perdem e ganham nesta roleta viciada, do marketing digital, do algoritmo e outras tantas palavras poderosas das quais se conhece muito pouco sobre a efectiva influência, que tem no crescimento dos negócios, na capacidade de influenciar as escolhas e, por fim, na construção de negócio sustentáveis. Esta “caída” do anjo glorioso, pode ensinar-nos muito sobre este pequeno mundo dos casamentos e sobre os métodos, atitudes e maturidade dos seus players.

Durante mais de uma década, e debaixo da batuta da Abby, o SMP foi inspirador, criou escola e alavancou talentos que também eles mais tarde, ajudaram a cimentar o estilo de casamentos SMP. Ajudou o mercado a desenvolver-se e foi uma escola para todos o que já tem uma década de trabalho feito.

Todos aprendemos um bocadinho nesta escola e tudo funcionou bem até determinada altura. Mas o sonho, pouco a pouco foi tornando-se cartilha, quando gerido por outras mentes. O marketing foi excessivo, e redutor. O bom gosto, passou a estar ao serviço dos número (e do algoritmo certamente).

O SMP fez o caminho errado ? Creio que não, quando saiu da mão da sua fundadora, era certo que o caminho passaria a ser outro. O investidor por natureza, dá pouca importância à ideia mas sim aos números. A rentabilidade do negócio passa a ser o objectivo.

Por outro lado, a nova estratégia comercial do SMP afastou-se demasiado da realidade, falava para todos mas só um pequeno grupo podia comprar e vestir o modelo. E quando se tem um gigante para alimentar, é preciso muito dinheiro. A história do "grande demais para cair/falir" voltou a acontecer.

Mas onde é que este caso é relevante para os nossos pequenos ou grandes negócios, a nossa micro realidade e o nosso futuro?

Em maior ou menor grau, todos assimilámos o modelo, oferecemos ao nosso cliente, a ilusão - estética e não só. Desenhamos algures no tempo, algo parecido àquele modelo - um dia fantástico, com gente perfeita, flores maravilhosas, espantosos locais de festa e no epicentro disto tudo, um par irrepreensível. Os clientes por sua vez passaram a adoptar o modelo mas não querendo (quase sempre) assimilar os custos inerentes. Tomou-se por certo que ter um casamento com o modelo SMP era ou seria acessível a todos. Mas, sabemos que tal até pela diferente realidade social e de mercado, tal é completamente impossível. O SMP com a espantosa ajuda da Net, permitiram que qualquer um de nós pensasse que ter um negócio desta natureza era possível e isso aconteceu mesmo. E ainda bem. Mas onde reside o problema deste SMP e onde as ondas de choque podem comprometer os nossos ?

Estando certa ou não, acredito que ventos diferentes estão a soprar há já algum tempo. Infelizmente, o mundo está um bocadinho mais inseguro e quando nos debatemos com um amanhã não identificado, queremos e exigimos segurança. As vontades, gostos e atitudes moldam-se ao que vamos encontrando pela frente. Venho acompanhando as mudanças com atenção, oiço o cliente e tenho a percepção, que actualmente as vontades do consumidor passaram a ser outras. Não procuram um cenário idílico e perfeitinho mas antes uma festa bonita, fornecedores que cumpram, preços razoáveis e boas ideias. Tão simples quanto isto.

Por outro lado, o mercado está mais educado e na hora da escolha, procura  negócios que tenham rosto, atitude, opinião e uma forma de fazer transparente e fiável. Talvez o desafio agora se centre aqui - fiabilidade, bons preços e escala. O nosso mercado dialoga pouco ou nada, estamos sempre de costas voltadas uns para os outros, barricados frente ao nosso portátil, escurtinamos os modelos fora da nossa realidade e seguimos sem capacidade crítica, tudo o que sejam novas ideias para vender, hoje é o Facebook e amanhã mudamos para o Instagram, não analisamos, queremos crescer para fora sem sabermos o que somos cá dentro - um sem fim de tiros em todas as direcções. O SMP se calhar fez o mesmo, quis ser enorme quando ainda não era grande, no caminho perdeu a identidade, ficou sem rosto e caiu de vez.

Todos nós sabemos que ao adoptar um comportamento reactivo e errático, isso não nos leva a lado algum - crescer (e bem) obriga-nos a pensar, a cumprir os tempos para ganhar força, capacidade de fazer e maturidade, para não ceder a pressões obscuras do "tem que ser". As coisas bem feitas levam tempo, e o mercado pode estar à procura de algo mais de acordo com as suas circuntâncias, mais genuíno e menos perfeitinho. O cliente acredite-se ou não, é o centro da acção e que nos permite ter um negócio, nós só somos uma parte da equação.

O futuro pode ser incrível, só temos que cuidar dele.